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Eu corria de manhã ainda no escuro. No início, havia medo de estar sozinha — até perceber que ali não se vibra nessa desconfiança. O corpo relaxa. A vigilância cai. Entendi que eu podia simplesmente existir, fazer o que quisesse, sendo mulher, sem a sensação constante de ameaça. Algo em mim desarmou.

O Nepal foi o país que não planejamos. Entre a Índia, meu grande sonho, e o Butão, sonho do Paulo, ele surgiu como território inesperado. Talvez por isso tenha entrado tão fundo. Um país de cores, sabores, uma arte refinada, delicada, de um bom gosto que me atravessou. Tudo ali respira saúde: grupos de idosos fortes, caminhando pelas ruas, subindo em direção aos topos do mundo. Corpos vivos, ativos, em movimento.

A espiritualidade está em toda parte — mas não como doutrina. Ela está nas esquinas, no cotidiano, no gesto simples. Crianças a caminho da escola tocam a cabeça nas deidades dos templos ao passar. Não é algo para dentro, fechado, exclusivo. É para fora. Para todos. Você não precisa entrar, pertencer a um grupo, saber rezar certo. Basta estar.

No Nepal, aprendi também sobre a morte vivida à vista. Sobre as margens do rio Bagmati River, onde os rituais acontecem. Sobre os abrigos que recebem idosos por sete dias — o tempo simbólico da despedida — até que a morte chegue. Depois, a cremação acontece ali mesmo. Vida e morte dividindo o mesmo espaço, sem separação dramática, sem esconderijo.

Talvez por isso as montanhas sejam tão presentes. Elas lembram que há algo maior sustentando tudo. Que o ar fica mais rarefeito, o pensamento mais silencioso, e a alma mais disponível para escutar.

O Nepal me ensinou que espiritualidade não precisa ser buscada — ela pode simplesmente ser respirada. Que o silêncio não é ausência, é espaço. E que, às vezes, quanto mais alto se sobe por fora, mais fundo se desce por dentro.